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CULPADO. E NÃO SE PROVOU O CONTRÁRIO.

  • Foto do escritor: Valeria Pagani
    Valeria Pagani
  • 10 de jun. de 2024
  • 3 min de leitura

Atualizado: 16 de mar. de 2025

— Margarita, flor da minha vida, marca em minha carne. Minha alma, minha mancha. Mar-ga-ri-ta: a ponta da língua descendo em quatro saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no quarto, contra os dentes… — Roberto foi interrompido.

— Protesto Meritíssimo. O réu foi chamado para responder às perguntas e não para recitar poesias. — O dedo em riste do advogado rodopiava no ar como uma batuta de maestro.

— Protesto aceito. O réu precisa responder às perguntas de maneira clara e objetiva. — O juiz pegou um copo de água, deu um longo suspiro enquanto fazia um gesto com a mão para que o julgamento prosseguisse.

O advogado de acusação reiniciou o seu discurso.

— Senhor Roberto Pereira da Silva, o senhor alega que espancou a sua esposa, a Senhora Margarita da Silva, em legítima defesa. O que o senhor tem a dizer sobre isso? — A figura esquálida e sem vida do advogado contrastava com a voz forte e rouca. Uma voz tão pujante que faria qualquer um confessar, mesmo por um crime não cometido.

— Doutor, eu amo essa mulher. — Roberto olhou para Margarita, que permanecia imóvel, encolhida, desfigurada, em um banco afastado. — Eu, amo tanto essa danada que às vezes perco a cabeça. — Roberto apoiou a cabeça sobre as mãos. — Eu precisava me defender dessa coisa que ela faz comigo.

— Coisa? Que coisa? — O advogado, curvou o corpo em direção a Roberto, tirou um lenço do bolso do paleto e enxugou o suor.

— Ela faz tudo rebolando, doutor. Ela lava a louça com o… deteve-se por alguns segundos. — Você sabe, doutor… — Roberto fazia gestos circulares no ar.

O advogado tentou poupar a cliente do constrangimento. — O senhor está se referindo às nádegas da minha cliente? E de que maneira as nádegas dela podem tê-lo atacado?

— A Margarita fica lavando louça e balançando o traseiro, arrumando a cama e balançando o traseiro, fazendo comida e balançando o traseiro. Não tem quem resista. Ela bota aquelas músicas que ela gosta e mexe para cá e para lá. — Os olhos de Roberto estavam cada vez mais arregalados. A fala cada vez mais ofegante.

— Sei, e o Senhor acha que isso lhe dá o direito de espancar a sua esposa? — A voz do advogado estava cada vez mais imponente. O terno, folgado para o corpo esquálido do rapaz, deixava transparecer as manchas de suor. 

— Olha só, doutor, eu estava lá, vendo meu futebol, tomando a minha cervejinha quando olhei para a cozinha e vi aquele traseiro me chamando.

— Desde quando nádegas tem voz para chamar alguém seu Roberto? — O advogado olhou para o juiz que pestanejava e aumentou o tom de voz. — E o que o Senhor fez em seguida?

— Eu voei do sofá e agarrei aquele traseiro. Ela ficou me tentando, qualquer homem faria o mesmo. Mas ela deu com a frigideira na minha cabeça. Aí sentei a mão nela. — Roberto mostrava todos os seus atos com gestos, falava mais com as mãos do que com a boca. — Vai me dizer que o doutor não faria o mesmo, não se defenderia. — Roberto buscou os olhos do advogado em busca de aprovação.

— Dou por encerrado, meritíssimo. — O advogado arrumou a gravata e voltou para a sua cadeira. Trabalho concluído.

O juiz proferiu a sentença, CULPADO. Pena máxima. Quatro anos de prisão. Margarita tentou esboçar um sorriso, mas o inchaço do rosto era tanto que só conseguiu soltar um leve gemido. 

Roberto, foi transferido para o Presídio Federal onde conheceu seus companheiros de cela, que acham que Roberto, assim como Margarita, rebola demais o traseiro quando anda e não conseguem resistir.


Valeria Pagani

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