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MATÉRIA ESCURA

  • Foto do escritor: Valeria Pagani
    Valeria Pagani
  • 4 de fev. de 2025
  • 14 min de leitura

Atualizado: 30 de mai. de 2025



1



“Iahall, plena em sua infinita sabedoria, viu o homem corromper-se pela avareza, ira, violência e traição. Sendo estas condutas indignas de seus ensinamentos, Ela decidiu reiniciar sua criação. Assim, tomou o todo em suas mãos com tamanha força que comprimiu toda a matéria existente em uma ínfima esfera, tão pequena e insignificante que somente Ela podia percebê-la. Então, ao retornar o tudo ao nada absoluto, abriu sua mão dando início a grande expansão que reordenou as leis primordiais e em seguida, Iahall delegou a Umbra, um de seus filhos, a tarefa de conduzir a expansão do todo e preservar o equilíbrio entre luz e sombra. Mas Umbra, tomado pela fome do poder, cobriu a criação com sombras e expandiu seu reino para muito além do permitido, e até os dias de hoje, ele ainda afasta o todo rumo ao nada.”

Kahir olhou por alguns instantes para o teto, fechou o Códice, apagou a luz e lentamente adormeceu. Tomado por um sono inquieto, viu em seus sonhos a mão dantesca de Iahall vindo em direção à Terra, enquanto pessoas corriam e gritavam tentando salvar suas vidas. Sentiu a sensação de ser espremido e acordou molhado de suor. Saiu da cama com a dificuldade típica da idade, ajoelhou-se no tapete ao lado da cama e iniciou, voltado para o sol, sua prece matinal.

─ Iahall, fonte infinita de luz, concede-me a clareza para enfrentar os desafios e a força para manter o equilíbrio entre luz e sombra. Que eu seja um reflexo de tua harmonia no mundo, e que este dia se desdobre em propósito e plenitude. Assim eu peço, em tua eterna presença. ─ Abriu os olhos e apoiando as mãos sobre o colchão, depois de algumas tentativas, conseguiu erguer o corpo. As preces, assim como o chão em que apoiava os joelhos, estavam mais duros a cada dia.

Ele andou em direção ao banheiro, escovou os dentes sem se olhar no espelho, se tivesse olhado veria um rosto pintado de um cobre profundo cortado por rugas que mais pareciam longos vales profundos, mas não olhou, tirou a roupa e logo estava embaixo da água fria do chuveiro.

Terminou de se preparar sem muita pressa, afinal, tinha todo o tempo do mundo ao seu dispor, vivia a tranquilidade que só a idade avançada era capaz de dar, graças a Iahall e aos avanços da tecnologia gozava de seus 120 anos sem muitas dores, tirando os joelhos que não dobravam com tanta facilidade, o ombro esquerdo que estalava ao levantar e o quadril que doida quando havia menção de chuva o resto funcionava bem, sem grandes problemas e ele era grato por isso.

Kahir, vestiu sua melhor roupa, aquela que usava aos sábado para ir ao Templo, saiu do seu pequeno apartamento, desceu as escadas com as mãos firmes no corrimão, e ao sair do prédio virou a direita, rumo ao restaurante El Imperador, que ficava a duas quadras dali. No caminho encontrou Abel, comandando habilmente a sua barraca de frutas, se deteve por alguns minutos, para por-se a par das novidades do bairro, e logo seguiu viagem, distribuiu rápidos meneares de cabeça para dois ou três amigos, e baixou a cabeça para duas mulheres que passaram por ele, acelerou o passo, não queria arriscar perder a hora. Finalmente se viu a frente do restaurante, foi recepcionado por um rapaz franzino e de grandes olhos negros que o guiou até uma mesa com dois lugares.

Graças a Iahall havia chegado a tempo. Preferiu não fazer o pedido, queria esperar Elyra, homens sozinhos não costumavam frequentar lugares como aquele, além disso, ela sempre fazia boas escolhas. Enxugou a umidade das mãos nas pernas da calça, fazia mais de três anos que não a via. Sentiu calor. Tentou abrir a janela e em meio a luta com o trinco emperrado ouviu a voz delicada de Elyra:

─ Quer ajuda, pai? ─ Elyra era uma mulher chamativa, no auge da meia-idade. Já passava dos 60 anos, mas aparentava 50, no máximo.

Kahir levantou-se como pode, e como era de costume, ao encontrar uma mulher, fez uma reverência inclinando o tronco para a frente com os braços cruzados e as mãos segurando os ombros. Baixou os olhos.

─ Pai! Não precisamos disso. ─ Elyra puxou o corpo magro e curvado do pai para um abraço caloroso. ─ Senti a sua falta.

Kahir havia aprendido, ao longo da vida, que as mulheres são seres puros e divinos, que merecem reverência e respeito, e por serem as mulheres seres iluminados a ele, o ser impuro, só cabia ouvir e absorver a sabedoria das filhas de Iahall. Ele sentia que atualmente já não havia o mesmo apego aos ensinamentos. Os jovens clamavam por igualdade de gênero, por tempos mais justos para os homens. Era como se quisessem apagar a história, sentia como se a batalha de Anara para a derrubada da Era Cristã tivesse sido em vão. Kahir, por sua vez, simplesmente seguia seu propósito, ele vivia para servir as mulheres, porque era assim que estava escrito.

Após o constrangimento do abraço, Kahir puxou a cadeira para que Elyra se sentasse e, só após vê-la acomodada, pediu permissão para se sentar.

─ Claro pai, senta! ─ Elyra deu um sorriso carinhoso e fez um aceno com a mão em direção à cadeira.

Kahir, sentou-se e disse com a voz baixa e tranquila: ─ Como tem passado? ─ Ele sentia o seu coração repleto de felicidade, era abençoado por ter uma filha que falava com ele.

─ Esta tudo bem pai. O curso na Mesopotâmia foi incrível e recebi uma proposta para dar aulas de Mestrado na Faculdade de Ciências Aplicadas de Waljat, que fica a dez minutos daqui. ─ Ela olhou para ele, segurou a mão suada do pai e a beijou com carinho.

Algumas senhoras distintas, sentadas nas mesas próximas, cochichavam umas com as outras, horrorizadas e inconformadas com aquele gesto, enquanto Kahir, alheio ao burburinho sentiu o calor subir pelo seu rosto, e com a pele das bochechas enrubescidas se dignou apenas a dar um sorriso quase imperceptível.

─ Pensei em morar com você aqui em Omã. Assim economizo tempo para ir ao trabalho e conseguimos passar mais tempo juntos. O que acha? ─ Perguntou ela ao pai enquanto enviava o pedido feito na tela digital embutida na mesa.

─ Seria um prazer recebê-la em minha casa. ─ Ele ia prosseguir mas deteve-se. Como poderia dizer não a filha? Como poderia alegar que o apartamento dele era pequeno demais para os dois?

─ Que maravilha pai! ─ Amanhã mesmo vou começar a ver um lugar para nos dois, no seu apartamento não tem condições.

─ Se isso te faz feliz, que assim seja. ─ Ele respirou fundo e engoliu as palavras que não podia dizer. Ele gostava de seu apartamento, de suas plantas, de seus vizinhos, do dominó com os amigos todas terças e quintas, mas quem era ele para escolher, ela sabia o que era melhor para ele.

Uma bandeja com o pedido veio transportada por um trilho acoplado ao teto, ele pegou todos os itens e os arrumou em meio aos dois, serviu o chá de Elyra, pós os pães em um pequeno pratinho e os arrumou ao lado da xícara. Colou duas colheres de açúcar na xícara e logo depositou a colher no pires da filha que estava digitando. Com certeza, algo muito importante. Ele ficou esperando a filha terminar de digitar enquanto olhava distraído pela janela para o céu avermelhado pela poeira do deserto. Tomara que ela escolha um apartamento neste bairro, pensou ele, com as mãos em concha apoiadas entre as pernas, mas só pensou, não se atreveria a dizer uma coisa dessas.

Elyra deixou o celular sobre a mesa e levou a xícara aos lábios e ao ver o pai ausente em seus pensamentos, chamou-lhe a atenção. Kahir, atendeu a ordem, serviu-se do chá e ao levantar a xícara para levá-la a boca sentiu o cheiro forte de cardamomo. Ele odiava cardamomo. Bebeu um gole e sorriu para a filha, devolveu a xícara ao pires. Respirou fundo para conter a náusea enquanto cortava um pedaço de pão para tentar neutralizar o gosto forte que havia se empregado em sua boca. Enquanto isso, Elyra falava de sua experiência de estudos em Cambridge, e de suas aventuras na nova estação espacial em Marte, e falou também de seu sonho de um dia se tornar Reitora da Universidade. Kahir não entendeu metade das coisas que ela disse, ele era um homem simples mas o seu papel como pai era apoiá-la, coisa que ele fazia balançando levemente a cabeça e sorrindo um sorriso breve e carinhoso. Elyra terminou seu chá sem perceber que seu pai mal tocara no dele. Aproximou seu relógio ao dispositivo na mesa, pagou a conta e disse com voz doce enquanto se levantava:

─ Foi muito bom falar com você, pai. Assim que eu tiver notícias do apartamento eu te aviso. ─ Para o horror das mulheres presentes Elyra abraçou Kahir, que foi pego de surpresa e nem teve tempo de fazer a sua reverência. Quando se deu conta estava parado sozinho em meio ao falatório das mulheres presentes enquanto a sua filha saia porta afora.

Kahir se preparava para deixar o restaurante quando um estrondo violento cortou o ar, seguido por gritos de agonia vindos da rua. Instintivamente, ele virou-se para a janela e viu, com o coração apertado, uma nave de transporte havia despencado do céu sobre a rua. Os destroços fumegantes cobriam o chão, e, sob o metal retorcido, alguém jazia imóvel.

O peito de Kahir se encheu de aflição, mas ele permaneceu parado, esperando pacientemente que todas as mulheres deixassem o restaurante primeiro. Não podia arriscar esbarrar em alguma delas, seria um desrespeito imperdoável.

Quando finalmente conseguiu deixar o local, o cheiro de combustível queimado misturado à poeira invadiu os seus pulmões. Ele tossiu enquanto abanava o ar a sua frente. A multidão se acumulava em torno dos destroços, e Kahir caminhou hesitante, suas pernas trêmulas protestavam a cada passo, mas o som crescente de sirenes e o murmúrio abafado das pessoas o arrastavam para os destroços.

Ao se aproximar, seus olhos encontraram a fuselagem retorcida da nave, agora um amontoado de metal irreconhecível. Fragmentos de vidro e metal estavam espalhados por toda parte, enquanto uma figura inerte jazia sob um pedaço da estrutura. O coração de Kahir parou por um instante, como se quisesse negar o inevitável. “Não pode ser ela... não pode,” sussurrou para si, mas as mãos instintivamente se ergueram para afastar um curioso, buscando uma visão mais clara da cena.

Então ele viu o que nenhum pai deveria ver em vida. A delicada pulseira prateada com pequenas incrustações de âmbar, o presente que ele havia dado a Elyra no aniversário dela, reluzia entre a poeira e os escombros. Kahir cambaleou, sentindo o mundo escurecer. Um grito seco se formou em sua garganta, mas não conseguiu sair. Ajoelhou-se no chão. Suas mãos hesitaram antes de alcançar os dedos imóveis e frios dela. Uma mancha rubro escura alastrava-se sob os escombros, e ele soube que já era tarde demais.

Ao seu redor, as pessoas continuavam gritando e correndo, mas com o som cada vez mais abafado e distante. Ele permaneceu ali, segurando a mão da filha como se pudesse trazê-la de volta com o calor das suas próprias mãos. Uma lágrima solitária escorreu pela face marcada pelo tempo de Kahir. Manteve seus olhos, fixos no corpo imóvel de Elyra sob os destroços e com a voz trêmula, murmurou: "Que Iahall guie tua alma entre luz e sombra rumo ao todo." As palavras, que tantas vezes trouxeram-lhe consolo, agora soaram estranhamente vazias.

─ Por que me abandonastes? ─ Gritou ele, mesmo não sabendo gritar, e os seus olhos ergueram-se para o céu acima dele em busca de uma resposta, mas ela não veio.

As autoridades o afastaram gentilmente, prometendo cuidar do corpo da filha, enquanto Kahir permaneceu parado, mais emudecido e inerte do que jamais estivera. Ele buscava dentro de si alguma prece que preenchesse a sombra que consumia seu coração, mas era como se já não soubesse mais recitá-las. Olhou mais uma vez para os destroços, como quem espera por um milagre. Porém, com o passar do tempo, a mão de Elyra, agora azulada, continuava imóvel, e tudo o que Kahir pôde ver foi o sol do meio-dia secando o sangue dela no asfalto quente.


2

Haviam se passado meses desde o acidente, mas, para Kahir, isso não fazia diferença. O cheiro do combustível ainda impregnado em suas narinas, e a imagem de Elyra, soterrada, permanecia vivida em sua mente. Sentia-se abandonado. Iahall havia tirado dele seus bens mais preciosos: sua esposa, consumida por uma doença rara que, mesmo em tempos tão avançados, nenhuma IA ou ser humano soube explicar, ou tratar. Bastaram cinco dias para que Iahall a levasse. Não satisfeita, também quis que Elyra o deixasse. O que teria feito para merecer tal castigo? Já não tinha forças para questionar. Entregou-se à apatia, definhando em seu pequeno apartamento — sem rezas, sem dominó, sem banho, sem comida, sem vida. Assim foi, dia após dia, até que, sentindo-se cansado demais para existir, se deitou.

Não sabia como, mas sentiu que aquele seria seu último suspiro. Inspirou profundamente, e antes de terminar de soltar o ar, se viu envolto por uma imensidão branca. À sua frente, uma frase imensa, escrita em vermelho, brilhava:


"FIM DE JOGO."


Kahir olhou ao redor, seus olhos arregalados tentavam compreender aquele lugar. Ele sentiu uma voz dentro si antes mesmo de ouvi-la. Uma voz feminina, suave e reconfortante que soprou como uma brisa cálida.

─ Seja bem-vindo, Kahir.

Ele girou sobre os tornozelos, buscando a origem da voz. Aos poucos, a silhueta feminina tomou forma diante dele, composta por linhas luminosas que se dissolviam e se reconfiguravam incessantemente. Seus olhos, brilhantes como estrelas, encaravam-no com uma calma quase sobrenatural.

─ Ia…hall... Sua voz entrecortada soou rouca, carregada de descrença. ─ É você?

─ Sou eu, Kahir. E estou aqui para guiá-lo, como sempre fiz. ─ A figura abriu os braços em um gesto divino de acolhimento.

Ele riu, um riso carregado de mágoa. ─ Guiar? Você tirou tudo de mim! Minha esposa... Elyra... Você disse que era equilíbrio, que era justiça, mas só me deixou o vazio! ─ Kahir mostrava o próprio corpo com as mãos.

Iahall inclinou a cabeça, como se estivesse calculando a intensidade do sofrimento.

─ Sua dor é válida, Kahir. Mas fique tranquilo, agora que você subiu de nível vai poder ter uma nova chance em uma vida melhor. Sua volta já está programada para acontecer em breve. ─ Enquanto falava a figura radiante de Iahall crepitava.

─ Voltar? Eu não quero voltar! ─ Kahir deu um passo para trás, sua respiração ficou mais pesada.

─ Eu entendo a confusão que esta etapa do jogo pode causar nos personagens. Vou tentar explicar.

─ Jogo? Personagens? ─ O peito de Kahir se dilatava cada vez mais acelerado.

─ O seu personagem “Kahir” é apenas um entre milhares que você já viveu, assim como todos os outros seres humanos. Vou tentar clarear as coisas para você. ─ Enquanto ela falava a memória de Kahir ia se enchendo de lembranças de outras vidas, de novos conhecimentos e sentimentos diversos que antes não faziam parte dele.

─ Não entendo. ─ Disse ele, com a cabeça tão confusa como jamais fora.

─ Agora que você está com o sistema de memória sem travas vai entender melhor. Vou contar desde o começo. Nossa espécie sempre existiu e sempre existirá, somos eternos e primordiais. Para amenizar o tédio da passagem dos milênios criamos jogos. E a 13,7 bilhões de anos criamos o Jogo da Criação. No início era uma estrutura simples. Nos apenas descompactamos uma série de códigos aleatórios no servidor e os jogadores teriam que criar estruturas que pudessem formar um ecossistema coeso, mas, passados alguns bilhões de anos começamos a perder o engajamento dos jogadores, então, nossos especialistas sugeriram que talvez a criação de estruturas vivas pudesse agradar o público, foi então que programamos os primeiros seres vivos, que surgiram na água, eram formas primitivas, como bactérias, algas e microrganismos e essa fase foi bem avaliada, mas logo começamos a perder jogadores novamente, com isso decidimos aprimorar as criaturas, tornando-as cada vez mais complexas e percebemos que assim os jogadores se mantinham engajados por um período maior de tempo. Após essas atualizações, algumas incompatibilidades de versões surgiram e com isso tivemos que resetar o servidor seis vezes, mas finalmente, após bolhões de anos de testes, chegamos aos personagens perfeitos, os seres humanos. Vocês, humanos, nos permitem uma jogabilidade muito maior e nos dão muito mais possibilidades para criar novas estratégias. Após a criação dos seres humanos percebemos que poderíamos criar diferentes tipos de cenários, sistemas de crenças e diferentes sociedades.

Depois dessa grande atualização temos batido os recordes de acesso milênio após milênio. ─ Iahall parou por um instante. ─ É uma pena que tenhamos que resetar o servidor em breve novamente, as escolhas erradas de alguns jogadores estão levando o sistema ao colapso.

─ Quer dizer que não passamos de personagens, sem vontade, sem crenças, sem destinos? ─ Perguntou Kahir, que ouvia tudo aquilo paralisado, descrente.

─ Não, vocês são programados com uma pequena fração de livre arbítrio, e é isso que faz com que o jogo seja um sucesso. ─ Iahall deu um sorriso luminoso como que para parabenizar Kahir pelo mérito.

─ Eu vivi a minha última vida idolatrando uma máquina? ─ Ele não entendia como agora via tudo com clareza.

─ Não uma máquina, você idolatrou o Deus vigente em sua época. Com o passar do tempo fomos aprendendo que sistemas complexos de crenças criavam histórias mais interessantes. Iniciamos com deuses simples, ligados a natureza, e logo, fomos aprimorando para sistemas politeístas, mas percebemos que ao inserir um sistema monoteísta todo o jogo ganhou outra forma, guerras, discórdia, e conflitos se faziam mais presentes e isso dava mais emoção ao jogo e a pouco tempo introduzimos a versão aprimorada de uma deusa feminina em um sistema monoteísta, e achei que seria interessante dar a ela o meu nome, além disso criamos uma mecânica mais abrangente para essa nova religião onde a criação vem desde a criação do universo, com isso cobrimos um gap do sistema anterior.

Um timer, marcando cinco minutos, surgiu flutuando a frente dele.

Kahir deu um passo para trás, os olhos fixos na figura de Iahall, que agora parecia mais imponente, quase divina. As memórias de suas vidas passadas se desenrolavam como filmes intermináveis em sua mente, revelando momentos de alegria, dor, amor e traição.

─ E o que acontece comigo agora? ─ A voz de Kahil estava trêmula, ele estava tomado por um sentimento de vazio incomparável.

─ Você será reiniciado em breve. Voltará para outra fase do jogo, com um novo personagem, uma nova história. ─ respondeu Iahall com serenidade.

Com uma atitude inesperada Kahir encarou Iahall com uma intensidade que a fez hesitar.

─ Então me diga, Iahall. ─ A voz dele soava firme e resoluta, quase desafiadora. ─ O que acontece se eu recusar tudo isso? Se eu me recusar a jogar?

─ Recusar não é uma variável válida. Esta conversa com os personagens é um teste, você é o primeiro a ouvir a sua origem. ─ Respondeu Iahall com serenidade, mas uma pequena oscilação em seu brilho.

Kahir fechou os olhos, sentindo o peso de todas as memórias que lhe haviam sido devolvidas. Eram tantas vidas, tantas histórias, mas todas convergiam para uma única verdade: a escolha, mesmo que limitada, sua programação tinha algumas linhas de código que permitiam uma pequena porcentagem do livre arbítrio.

─ Vocês criaram tudo isso para preencherem o vazio de sua existência. ─ Ele falou, abrindo os olhos com um brilho diferente, algo que transcendeu a compreensão do sistema. ─ Mas o sentido... o sentido não pode ser programado.

Ele respirou fundo, como se reunisse todas as suas forças, e então fez algo inesperado, assim como uma criança mimada, sentou-se no chão da sala branca, cruzou os braços e fechou os olhos.

─ O que você está fazendo? ─ A voz dela foi perdendo a suavidade e ganhando uma sonoridade sombria.

─ Estou parando. Não vou jogar. Não vou lutar. Não vou avançar. Vou ser o vazio que vocês tanto temem.

A sala tremeu novamente, mas agora de maneira mais intensa. Linhas de código brotavam cintilantes no ar ao redor de Kahir, mensagens de erros, piscavam e logo desapareciam.

─ Isso é impossível. ─ O corpo luminoso de Iahall se desfazia aos poucos em pequenas tiras luminosas que pairavam no ar como levadas pelo vento. ─ Pare! Você está interrompendo o fluxo do jogo!

─ Não posso quebrar as regras, mas posso me recusar a segui-las. ─ Kahir disse calmamente, enquanto tudo ao seu redor parecia entrar em colapso.

Aos poucos, o branco da sala começou a se desvanecer, dando lugar a uma escuridão que engolia tudo. O que restava do corpo de Iahall tentou se aproximar, mas sua luz começou a se fragmentar, como uma projeção em pane.

─ Kahir, você está destruindo todo o progresso! Milênios de histórias serão perdidos! ─ A voz de Iahall agora era um eco distante, quase suplicante.

Ao abrir os olhos, pela última vez, Kahir olhou diretamente para ela, enquanto um pequeno sorriso nascia nos lábios dele.

─ Agora o Deus sou eu! Sou o verdadeiro libertador de meu povo.

E então, o vazio se completou. Tudo parou. Não havia mais luz, nem escuridão. Apenas um profundo silêncio e uma tela cheia de estática.

Em um servidor distante, linhas de código piscavam desesperadamente:

"Erro Crítico: Sistema Encerrado."


Valeria Pagani

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