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ALEPH-ZERO

  • Foto do escritor: Valeria Pagani
    Valeria Pagani
  • 25 de jul. de 2024
  • 11 min de leitura

Atualizado: 16 de mar. de 2025

Roberto descia as escadas, enquanto a madeira dos degraus resmungava o cansaço de anos de falta de cuidado. Era a primeira vez que ele entrava no porão após alugar a casa. O corretor falou que iriam limpar, mas as tralhas continuam aqui, pensou ele, enquanto tirava uma teia de aranha que havia se enroscado em seu cabelo. A mudança para Campinas, interior de São Paulo, não havia sido uma decisão fácil, mas a oportunidade de dar aulas na UNICAMP pareceu-lhe um bom salto em sua carreira, só precisava colocar a casa em ordem e tudo ficaria bem.


A luz amarelada que vinha de uma única lâmpada no teto, fazia daquele lugar uma fábrica de sombras, objetos velhos e outros não tão velhos compartilhavam o mesmo espaço, a mesma poeira, a mesma falta de uso, o mesmo esquecimento. Roberto olhou ao redor, caixas e mais caixas amontoadas em um canto serviam de apoio para um velho carrinho de bebê antigo onde uma boneca de porcelana encarava-o com um olho só. As velhas luvas de jardinagem, caídas no chão, estavam cobertas por uma camada grossa de poeira, roupas que algum dia serviram em alguém compartilhavam a mesma caixa que um umidificador de ar, um aspirador quebrado e um chinelo de plumas cor de rosa, olhando para aquela imensidão de inutilidades uma ideia passou pela cabeça de Roberto, porões são como grandes buracos negros onde a luz é sugada e o espaço se torna infinito, iria usar essa metáfora em sua próxima aula.


Empunhou a vassoura, encontrou uma pá caída ao lado de uma bicicleta enferrujada, olhou para tudo aquilo e pensou que precisava de uma caixa para começar a jogar as tralhas fora antes de varrer. Vasculhou o lugar e lá estavam elas, um fardo de dez caixas nunca usadas, perfeito. Montou uma caixa, e começou o serviço por uma grande estante que ficava na parede do fundo, canetas velhas, caixa, incontáveis lápis de cor sem ponta, caixa, um pote plástico de sorvete cheio de borrachas usadas, meu Deus, que nojo, quem guarda essas coisas? caixa, e assim foi da primeira a terceira prateleira da estante, tralha, caixa, tralha, caixa, incansável. Sentado no chão, sentindo-se vitorioso, olhou para a última prateleira onde livros escolares rabiscados e enciclopédias com texto que já não contavam mais a verdade, jaziam silenciosos e em meio àquela inutilidade literário um livro chamou-lhe a atenção, tinha uma capa de couro preta, puxou-o da estante, uma traça ousou vir junto, mas foi logo aniquilada pelo pano que Roberto segurava nas mãos, limpou a capa, ao remover a sujeira notou um símbolo quase imperceptível, era uma figura tão escura quanto a capa. Tirou o celular do bolso, ligou a lanterna e conseguiu distinguir a imagem, parecia uma letra N, ele conhecia aquele símbolo, pensou. É isso, é um Aleph, desligou o celular e o guardou novamente no bolso. Havia lido alguma coisa a respeito desse símbolo em algum momento, mas não se lembrava onde. Abriu o livro, novamente um arrepio percorreu sua espinha, como faz frio aqui embaixo.


Começou a folhear as páginas, era algum idioma que ele desconhecia, em meio as gravuras seus olhos se fixaram em uma que mostrava uma figura aramada plana sendo puxada para baixo por um ponto, isso parece um… pegou o celular no bolso, ligou a lanterna, apontou para o livro, a luz foi instantaneamente sugada para dentro da figura formando um fio quase sólido, Roberto soltou o celular e o livro. Podia ouvir as batidas do seu coração, que raios foi isso… respirou por alguns segundos, pegou o livro, procurou pela figura, não encontrou, parecia ter desaparecido, outras figuras novas haviam substituído as anteriores. Levantou-se, largou o livro no chão, andou em direção à escada, segurou o corrimão, pisou no primeiro degrau, a luz do teto piscou por um segundo e quando Roberto abriu os olhos, estava sentado em frente a estante segurando o livro nas mãos, PUTA MERDA. Trêmulo, soltou o livro, levantou-se, correu em direção à escada, pisou no primeiro degrau, apagão, piscada, sentado com o livro na mão, ofegante, arremessou o livro para longe, tropeçou em direção à escada, apagão, livro na mão, o suor molhava a sua testa, a respiração era a única coisa que se podia ouvir naquele lugar.


Sentado em meio a poeira, com o livro na mão, pensou que talvez fosse o momento de ser racional, era um físico, o mínimo que se esperava dele era racionalidade. Enxugou o suor da testa com a manga do casaco. Agora, sim, seu cérebro serviria para algo além de calcular e teorizar. Olhou para a capa, se pudesse se lembrar, Aleph… Aleph… seus dedos tamborilavam no couro negro da capa do livro. Ahhhh, bingo! Aleph, é a primeira letra dos alfabetos semíticos, não que isso ajuda-se, não sabia bem o que isso significava, ou que alfabetos eram aqueles, mas estava fazendo progresso. Que mais… que mais… pegou o celular do bolso, abriu o navegador, digitou ALEPH SIGNIFICADO no campo de busca, “Sem internet. Tente: Verificar os cabos de rede, modem e roteador… e blá… blá… blá…”, impossível, olhou para os palitinhos do 4G, eles estavam todos lá, reluzentes, majestosos, como podia estar sem conexão? Olhou para o livro, e se fosse carinhoso com ele? Guardou o livro cuidadosamente no mesmo lugar de onde o havia retirado, levantou-se com calma, sem olhar para trás, segurou o corrimão, pé no primeiro degrau, olhou para a lâmpada no teto, brilhante como deveria ser, levantou o outro pé para seguir em frente, apagão, chão frio, livro na mão.


Mas que inferno é esse? Coração acelerado outa vez. Ofegante… Racional… Racional… Viu-se naquela situação inusitada e pensou que sua vida sempre estava sob controle, sempre racional, sempre agira baseado em fatos. Se viu só, e na sua solidão uma lágrima brotou e teimosa começou o percurso em direção a sua barba, não estava se reconhecendo, o desespero não fazia parte do seu repertório, mesmo no momento mais difícil de sua vida, mesmo quando viu, através da janela, Florencia entrando naquele táxi para nunca mais voltar, nenhuma lágrima ousou percorrer o seu rosto. Esse enigma tem que ter uma solução, enxugou o suor e a lágrima ao mesmo tempo. Tirou o casaco, quem sabe assim pararia de suar.


Olhou para a capa do livro novamente, a figura trouxe a lembrança de uma aula de matemática que havia assistido na faculdade, “Aleph-Zero representa o menor dos infinitos, o cardinal do conjunto dos números positivos inteiros.” Finalmente! Sua memória eidética serviu para algo além de guardar rancores. Se o Aleph significa o infinito e quando apontei a lanterna para a figura do livro a luz foi sugada, isso significa que… ainda não sabia. Precisava de mais pistas. Abriu o livro, as figuras totalmente novas pareciam esquemas e gráficos. Continuou folheando na esperança de encontrar algo familiar, viu esquemas de corpos humanos, detalhes de anatomia, viu arvores e seus cortes, viu sementes, viu também planetas e sistemas solares, chegou a conclusão que era uma enciclopédia sobre tudo o que pode existir, se ele pudesse lê-la, se ele entende-se o todo e não só os gráficos.


Passadas muitas páginas, fixou os olhos em um desenho, era uma linha reta horizontal com um ponto em cada extremidade, na ponta esquerda, o que seria o ponto A estava marcado com o símbolo do Aleph e na outra extremidade outra letra que ele não conseguiu distinguir, no meio, entre uma ponta e outra havia uma reta vertical e a figura de um ser humano cortado pela metade, como se estivesse entrando na reta. Impossível alguém entrar em uma linha reta, pensou ele. Lembrou das canetas que havia encaixotado, levantou-se, apertou firme o livro entre os dedos, não queria arriscar um novo apagão. Andou em direção à montanha de caixas que havia feito, colocou o livro preso entre o cinto da calça e a barriga, assegurou-se de que estava bem preso, vasculhou até encontrar uma caneta e um caderno amarelado que ainda tinha algumas folhas não usadas.


Ao perceber que podia se movimentar pelo porão sem que o tempo fosse resetado, sentiu-se a vontade para sentar no velho sofá empoeirado, ficaria mais confortável e mais perto da luz, sentiu um grande alívio ao poder descansar o traseiro após horas sentado no chão frio, viu que o sofá estava forrado com uma manta de lã xadrez, sem se importar com a poeira ou o mofo puxou-a e cobriu as costas. Roberto estava tomado por um estado febril de empolgação, o desafio do livro havia despertado nele um lado infantil a muito adormecido. Começou a anotar as pistas que havia recolhido, a caneta estava há tanto tempo calada que a tinta se recusava a trabalhar, riscou a sola do sapato para trazê-la de volta a vida, pronto, as linhas, agora perfeitas, deslizavam frenéticas sobre as folhas amareladas e manchadas do caderno. Se o Aleph é a letra A e o ponto inicial de uma reta… frases seguidas de gráficos mostrando o ponto A e o ponto B em uma reta populavam as páginas. Abriu o livro para conferir novamente o gráfico onde um ser humano atravessava a linha, mas, de novo, tudo novo. Novas informações, novos gráficos, novas linhas, página após página nada lhe parecia familiar. Novos animais, novas plantas, novos conceitos, chegou a conclusão de que aquele livro era “um mundo em constante renovação”, registrou essa informação em suas anotações. Agora sabia que não podia fechar o livro de forma alguma, segurou firme o exemplar, os dedos aferrados as bordas das páginas.


Roberto não era adepto de renovações, mudanças ou readequações, gostava do seu mundo estático, gostava de saber que algumas coisas no universo eram imutáveis, não as galáxias, não os planetas ou os elétrons, mas sim a sua escova de dentes, que precisava estar sempre em um copo na parte direita da pia e o seu relógio que dormia sempre na mesa de cabeceira ao lado do abajur. Se tudo sempre funcionou bem sem mudar, por que mudar? Porque teimar em comprar um porta-escovas que se fixa na parede se o copinho estava bom lá onde estava, porque dar de presente um novo relógio se o antigo marcava as horas perfeitamente, se encaixava satisfatoriamente no pulso sem ser, nem pesado, nem leve demais, por que mudar se sempre foi assim? Florencia, sempre queria mudar tudo, mudar de lugar, mudar de restaurante, mudar os móveis, sempre. Até o dia que se mudou. Roberto sempre pensava nesse dia. Fixou seu pensamento no agora, não podia fechar o livro, precisava manter as informações estáticas, só assim conseguiria sentir-se seguro nesse mundo que quer sempre mudar tudo.


Uma ideia iluminou a sua mente, se a luz foi sugada e o homem atravessava a linha… pegou o celular do bolso, recapitulou as anotações, sim, só precisava achar a figura certa. Será que o homem da figura atravessou a linha, por que assim como Florencia precisava mudar? Folheou página após página, sentia-se seguro de ir e vir pela leitura, sabendo que nada iria mudar. Uma cena da infância invadiu seu pensamento. — De novo não! — Roberto de escondeu embaixo da cama. — Pode ser que seja a última vez. Você sabe que não sou eu que escolho para onde o trabalho me manda. — O pai, agora deitado no chão ao lado da cama, mãos cruzadas sobre o peito, conversava com o menino através da transparência do lençol que pendia da beirada cama. — Podem ir, eu vou ficar. Estamos sempre mudando, e aí começa de novo e de novo e de novo… Quando voltou à realidade, Roberto se deu conta de que estava há horas folheando o livro. Mas como isso era possível? Era um livro de no máximo trezentas páginas. Correu as páginas até chegar à última. Seus olhos ficaram alguns segundos estáticos, perplexos, incrédulos. No lugar do número, podia ver o símbolo do infinito. Segurou com força o livro aberto e correu com a caneta sobre o caderno, desenhou o símbolo.


Ficou tão absorto no poder daquela informação que desenhou infinitos infinitos, um de cada jeito, um com linhas duplas, o outro em formato de pista de Fórmula 1, o outro era uma pista de corrida com pessoas correndo vistas de cima, e tinha também um com um rosto de cada lado, era uma mulher de um lado e um homem do outro, e foi mudando, infinitas vezes, em meio a infinidade de desenhos um raio de sol vindo da pequena janela do porão o fez acordar do seu mundo infinito. Meu Deus, preciso sair daqui. Deixou o livro sobre o sofá, foi até a janela, ficou na ponta dos pés, apoiou as mãos no batente, o dia estava amanhecendo. Há quanto tempo não via esse espetáculo acontecer? Precisava acordar mais cedo. Se conseguir sair daqui, não posso perder essa maravilha nunca mais. O êxtase da claridade o fez esquecer de tudo, andou em direção à escada, pé direito no degrau, apagão, sentado em frente a estante, livro na mão, noite fechada. NÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOO! Apoiou a cabeça entre as mãos, daqueles olhos, que outrora eram rios secos, agora brotavam lágrimas que corriam como pequenos garanhões em direção ao pasto de sua barba. Soluçou! Se deixou cair ao chão, encolheu-se, queira estar embaixo de sua cama infantil. Abraçou as próprias pernas. Após algum tempo adormeceu.


Acordou com uma luz forte em seus olhos, cobriu o rosto com a mão, tentou erguer o corpo, mas o chão duro havia feito seu trabalho, estava dolorido demais para ter alguma agilidade. O sol estava despontando novamente, levantou-se com dificuldade e foi em direção a pequena janela, aquele momento valia a pena ser revivido. Na ponta dos pés admirou o astro-rei enchendo seus súditos de energia, olhou para o chão, o livro estava novamente fechado, PUTA QUE PARIU! Tirou as mãos da janela, sentia fome, sede, frio, vestiu seu casaco que estava jogado ao lado da estante, pegou o livro, sentou-se no sofá, lembrou de Édipo e sua esfinge, sentia-se devorado pelo enigma.


Sem muita vontade, abriu novamente o livro e folheou as páginas, mais por falta do que fazer do que por esperança. Deteve-se em uma figura que lhe chamou a atenção. A ilustração ocupava toda uma página e tinha um grande título no topo, não tinha visto nada parecido até agora, era um diagrama complexo onde um círculo parecia soltar sete raios em direção ao símbolo do infinito que estava sobre um homem deitado. Estava absorto no diagrama quando percebeu que o pequeno feixe de luz que vinha da janela estava sendo sugado para dentro do círculo desenhado no papel. ALELUIA!! Roberto levantou-se do sofá e dançou com o livro aberto nas mãos, algo havia mudado, algo novo estava acontecendo. Andou em direção ao que vinha da janela, o livro começou a vibrar. A luz que emanava da figura era tão intensa que Roberto mal conseguia abrir os olhos. Um rodamoinho tomou conta do porão, a poeira espalhada tornou o ar irrespirável. Quando já não conseguia mais dominar o livro, Roberto, foi sugado para dentro da página. Após entrar na figura, Roberto viveu a sensação de ser espaguetizado, esticado e desmaterializado. Finalmente pôde ver: viu o passado, o presente e o futuro. Viu Florencia chorando no táxi rumo ao aeroporto e viu-a retornar à casa de seus pais em sua terra natal, viu-se segurando o choro do outro lado da janela enquanto ela partia, viu o mundo mudando, viu-se mudado, viu a Terra, o sistema solar, as galáxias e então, todo o universo, viu o tudo e o nada, viu o começo e o fim, e sentiu paz, compreendeu o todo, não só os gráficos e as equações, e por fim se entendeu.


Despertou aos poucos desse estado sublime enquanto seu corpo era compactado, para sair de uma pequena bola reluzente. Foi ejetado e caiu no chão, apalpou os braços, tocou o próprio rosto, mal podia acreditar que estava vivo. Levantou-se, olhou em volta, estava embaixo da escada de outro porão, não pode ser, outro porão não, correu em direção à frente da escada, parou por alguns segundos com o pé erguido sobre o primeiro degrau, com as mãos firmes no corrimão foi abaixando lentamente o pé em direção ao degrau, fechou os olhos, sentiu a madeira dura sob o solado do sapato, nada aconteceu, abriu os olhos, deu um leve sorriso, levantou o pé esquerdo e com muito cuidado o apoiou no segundo degrau, pé após pé, rangido após rangido, foi ganhando a liberdade, após o sétimo degrau estava correndo rumo ao topo, buscou, naquela casa desconhecida, a porta da rua, encontrou, por sorte estava destrancada, ao abrir o sol inundou seu rosto.


Levantou os braços em direção ao céu, sentiu-se revigorado, agradeceu em silêncio aos astros por estar livre, permaneceu assim por um tempo, sem se importar se alguém o notaria ou se ririam dele, estava vivo, abriu os olhos e ao voltar a cabeça para a frente viu uma porta do outro lado da rua, não podia ser, olhou para um lado e para outro da rua, sim, era a porta. Sorriu. Bateu a poeira das roupas, alisou o cabelo e a barba com as mãos, atravessou a rua, parou em frente a porta pintada de verde com ferragens douradas, seu dedo foi ao encontro do botão da campainha, aguardou.


Após algum tempo ouviu-se o barulho da chave girando, com um leve lamento a porta se abriu e revelou os grandes olhos espantados de Florencia, sorriu para ela, enquanto a brisa gelada e úmida do inverno de Buenos Aires fazia seu corpo estremecer.

 

Valeria Pagani


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